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Entrevista sobre a trilha do filme Cabra-cega
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Entrevista sobre a trilha do filme Cabra-cega
Olhar Imaginário

Cabra-cega conta com canções trabalhadas por Fernanda Porto e Toni Venturi especialmente para o filme. Versões eletrônicas e em drum´n´ bass de clássicos da MPB, relacionados aos anos de chumbo, acompanham o desenrolar da trama, e compõem a estética do filme baseada numa leitura arejada dos fatos de nossa história recente. Encabeça a trilha a antológica "Roda Viva", cantada por Fernanda com o seu compositor, Chico Buarque, em ritmo de maracatu eletrônico. Esta versão está sendo amplamente executada nas rádios.

Outras cinco canções aparecem no filme em nova roupagem e interpretações. São elas, Construção e Rosa dos Ventos, de Chico Buarque, Saveiros, de Nelson Motta e Dory Caymmi, Sinal Fechado, de Paulinho de Viola e Teletema, de Antonio Adolfo e Tibério Gaspar. Enquanto que dois clássicos do início dos anos 70 aparecem em sua versão original: Eu quero é botar meu bloco na rua, de Sergio Sampaio e A Little More Blue, de Caetano Veloso. A trilha conta com a participação de Chico Buarque, que canta Roda Viva com Fernanda Porto, e de Na Ozzetti e Toni Garrido, que cantam os sucessões "Teletema" e "Sinal Fechado.

Cabra-cega é o primeiro trabalho em parceria de Fernanda Porto e Toni Venturi para um longa-metragem de ficção. A parceria, no entanto, é antiga e já produziu trilhas para vídeos institucionais, curta-metragens e documentário de longa-metragem, como "O Velho - A vida de Luiz Carlos Prestes", de 1997.

A seguir uma entrevista com Fernanda Porto sobre Cabra-cega:

Cerne da música de Fernanda Porto está nas imagens
A história de Fernada Porto com o áudio visual vem de longe. Musicista tarimbada - tem formação em regência e canto lírico -, foi fazendo trilha sonora para vídeos institucionais, publicidade, documentários e filmes de ficção que a artista desenvolveu, e sustentou, sua carreira.Nesta breve entrevista sobre a trilha que assina em parceria com o diretor Toni Venturi para Cabra-cega, Fernanda revela que sua experiência na área do áudio visual pavimentou o caminho que ela hoje trilha na música pop, como precursora da alquímica mistura entre drum´n´bass e bossa nova. Ela conta que foi para um curta de Toni Venturi, chamado "1999", que pela primeira vez experimentou misturar elementos tão improváveis quanto música eletrônica e lírica em latim. Fernanda dá mais detalhes sobre o seu processo criativo, a seguir:

Como você lidou com o desafio de, por meio de uma trilha sonora, estabelecer uma ponte entre duas gerações, em Cabra-cega?
Fernanda - Quando fui chamada pelo Toni Venturi para fazer esta trilha, fiquei extremamente feliz em ter a missão de elaborar releituras. Esta proposta me deixou bastante à vontade para desenvolver um trabalho autoral. Tive uma licença poética que me permitiu, por exemplo, colocar o som de uma guitarra na cena em que Tiago tem um momento voyer, numa coisa bem psicodélica, misturada com bateria eletrônica, o que não é daquela época. Pude acabar usando muito piano e sintetizadores de hoje, mesclados com uma ampla consulta que fizemos dos hits de 1969 a 1971. Aí fomos experimentando as músicas com as cenas, ainda sem cortes, e decidindo o que poderia ser releitura e o que era original. Neste processo chegamos, por exemplo, à nova roupagem de Roda Viva, que criamos para o filme, cantada por mim e pelo seu compositor, Chico Buarque. Então se a proposta fosse formatar uma trilha histórica, não teria esta liberdade para compor, e acredito que eu não seria a pessoa mais recomendada para fazer isso. Mas como o desejo é de fazer uma ponte, pude vazar muito neste projeto a música que estou fazendo e quero fazer agora. Evidentemente, o Toni conhece muito bem essa característica minha.

Este não é o seu primeiro trabalho para cinema e nem para o Toni, não é?
Fernanda -
A trilha de Cabra-cega é a primeira que faço para um longa-metragem de ficção. Já tinha feito a trilha para a versão em série de TV de "O Velho", do Toni. Trilhas para curtas eu fiz algumas, como "Desterro", de Edurdo Paredes, e a de "Vítimas da Vitória", de Berenice Mendes, que ganhou o prêmio de Melhor Trilha Sonora no Festival de Brasília. Era uma trilha toda orquestrada. Com o Toni também fiz um curta chamado "1999", no início dos anos 90. Foi neste filme que pela primeira vez pude juntar as duas partes do meu conhecimento musical - o canto lírico e a regência, com o pop e a eletrônica. Fiz uma música eletrônica com conto lírico em latim. Este trabalho foi decisivo na minha carreira, tanto que o tema principal, chamado "1999", eu coloquei no meu primeiro disco.

Você fez também muita publicidade? Isso também influencia o seu trabalho?
Fernanda -
Eu produzi algumas centenas de trilhas para documentários e vídeos institucionais, que foram de grande importância para o desenvolvimento do meu processo de criação. O cinema tem uma coisa muito legal, que é o fato de ser uma arte que depende do tempo. Então, sempre me baseei muito nisso. Desenvolvi um jeito próprio de cobrir imagens com minhas músicas. Tanto é que todos os meus temas partem de imagens. Nunca consegui fazer o contrário. Posso compor a partir de letras, mas não o inverso. Pra mim a música sempre aflorou com a vontade de coloca-la a serviço de algo que admiro.

Então não seria exagero dizer que foi desse seu processo com o audiovisual que surgiu o caminho que te levou a produzir o drum´n´bossa?
Fernanda -
Não, não seria exagero. Eu vivi muito de trilha para a publicidade. Uma das trilhas mais importantes que fiz foi para um documentário sobre a Mata Atlântica, outra parceria com o Toni. Tratava-se de um vídeo da Shell chamado "Ainda Temos Tempo", que passava na TV Manchete, no início dos anos 90. É uma trilha totalmente sincronizada. O violino em cima de cada pássaro, etc. Depois fui chamada para fazer trilhas para a Eco 92, por causa desse trabalho. Enfim, o cinema me joga para ambientes que eu nunca chegaria sozinha. E eu gosto muito quando diretores me chamam para um trabalho que eu possa fazer de maneira bem autoral. E este é o típico caso do Cabra-cega e de Toni Venturi.