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Fernanda Porto: entre a MPB e a música eletrônica
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Fernanda Porto: Nuove geografie per il sound made in Brazil
Revista Acid Jazz (Itália)
Stefano Renzi



A nova musa da música brasileira, multi-instrumentista, cantora, compositora e pesquisadora em campo eletroacústico, estréia com um álbum de grande prestígio, ótima e elegante mistura de songwriting e influências eletrônicas.

Falar da renovação do som brasileiro através da voz de seus protagonistas está se tornado um hábito prazeroso, ao menos nas páginas desta revista. O grande empenho de etiquetas como a Trama e artistas como Cibelle, Totonho, Lenine e Bebel Gilberto, abrindo novas perspectivas para a música popular desse país está, efetivamente, atraindo a atenção de grande parte dos envolvidos no setor. E também de uma série infinita de artistas não brasileiros que escolheram o samba e a bossa nova como marca do próprio som.
Nesta orgia de avanços e retrocessos históricos, capitães e gregários, pioneiros e profetas indignos, o álbum de estréia de Fernanda Porto eleva-se um patamar acima. Não tanto pelo som criado pela jovem brasileira, ótimo e elegante mix de songwriting e influências eletrônicas, quanto pela estatura da artista em questão, com certeza entre as personalidades mais fortes da contemporaneidade musical. Multi-instrumentista, compositora, cantora, pesquisadora em campo eletroacústico, Fernanda chegou à gênese deste cd através de uma série infinita de experiências e experimentações em âmbito musical – todas fundamentais para compor um trabalho que podemos indicar tranquilamente como um dos mais significativos da temporada.
A seguir, a nossa entrevista.

Queremos te conhecer melhor, comecemos então falando das tuas primeiras experiências musicais...
"A primeira é dos tempos do jardim da infância, foi ali que comecei a estudar flauta. Eu tinha 4 anos. Aos 7 já compunha as primeiras músicas, e no tempo livre dava aulas particulares aos meus amigos em troca de um sorvete. A minha família também era muito ligada à música: minha mãe e minha irmã tocavam piano, meu avô era tecladista, até o meu vizinho tocava violão e chegou a me dar aulas. Lembro que um Natal ganhei da minha avó uns instrumentos musicais de brinquedo: um sax de plástico e uma espécie de bateria eletrônica. Acho que a escolha de estudar música foi uma conseqüência lógica e natural de tudo isso."

A partir dos estudos de música clássica você aos poucos se aproximou da experimentação eletroacústica. Qual a importância, para o teu trabalho, de explorar gêneros musicais e metodologias de composição tão diferentes?
"A possibilidade de experimentar diversos campos musicais certamente melhorou a minha relação com os vários instrumentos. Acredito que esta é a característica mais evidente do meu modo de trabalhar."

Fale-me das tuas experiências com a música e a instrumentação eletrônicas.
"O primeiro contato real com a música eletrônica foi em 1998, no estúdio de eletroacústica da universidade. Na época, eu tinha comprado o meu primeiro teclado e o meu primeiro sintetizador, um Roland MC500. Aí comecei a explorar esse universo, que abriu uma série infinita de possibilidades para a minha música."

Você foi uma das primeiras artistas brasileiras que utilizou a tecnologia para compor sua música. Você não se sente assim uma espécie de madrinha para toda uma geração de cantoras e compositoras do Brasil? Penso na Cibele, na Bebel Gilberto...
"Sempre fui uma pessoa muito tranqüila e, de certa forma, solitária. Passei muito tempo trabalhando sozinha no meu estúdio, e não me aconteceu de encontrar pessoas com quem trocar opiniões, idéias ou coisas assim. Estou contente por meu trabalho ter tido a possibilidade de atravessar as paredes do meu estúdio pois assim posso estabelecer um diálogo com outros produtores da minha geração."

Quanta influência jazz há em tua música?
"Quando criança escutava muitos compositores como Oscar Peterson, Dave Brueback, Herbie Hancock e Wayne Shorter. Com o passar do tempo me apaixonei pelas produções ECM, do Egberto Gismonti; por Pat Metheny, Lyle Mayes e tantos outros. Tomara que estas influências possam ser captadas por quem se aproxima da minha música."

Qual a tua relação com a MPB?
"Acho que a minha predisposição artística me leva de todo jeito a me concentrar no novo, mais do que no passado. Eu estudei com Joaquim Koellreuter, um maestro alemão estudioso de vanguardas musicais, muito crítico em relação aos tradicionalistas brasileiros e acho que a experiência com ele marcou profundamente minha relação com esse tipo de música."

Na tua música, embora filtrados através das dinâmicas da dance, reconhecemos elementos vindos da tradição pop brasileira, mais próxima ao samba e à bossa nova. Você pode contar qual o teu processo criativo para conciliar estes dois "estilos" musicais, de afinidade só aparente?
"A maior parte de minhas músicas é composta a partir do texto. O meu objetivo primeiro é encontrar o modo melhor para conciliar a música com as palavras. Partindo desta premissa é claro que, em algumas ocasiões, a música acaba sendo sacrificada em nome dos versos. A idéia básica de todo jeito é sempre a de adaptar a música às palavras, um pouco como fazem os autores de trilhas sonoras com as imagens dos filmes."

Onde você busca inspiração para escrever tuas canções?
"Nos textos que escrevo, nos ritmos que consigo encontrar ou, simplesmente, nos episódios da vida."

Fala pra gente do teu novo álbum, homônimo...
"Fernanda Porto é o meu primeiro álbum em absoluto. Antes eu tinha gravado apenas músicas para algumas compilations. Escolhi trabalhar com a etiqueta Trama pelo simples motivo que ali me deram a possibilidade de fazê-lo de modo completamente livre e sem condicionamentos."

Alguns djs colaboraram com você na realização do álbum. Qual a importância dessa contribuição?
"Durante a gravação tive o apoio de dois djs: XMS e Patife. Embora goste muito dos remix de minhas músicas feitos por alguns djs, faço questão de esclarecer que a minha intenção era realizar um trabalho de músicas influenciadas pela música eletrônica, mas não um disco dirigido ao dancefloor. Acho importante que as pessoas entendam este conceito, que está na base de todo o meu trabalho."

Além de ser uma cantora e compositora multi-instrumentista, você também cuidou de quase todos os aspectos relativos à produção. Você acha que este estilo quase autônomo de trabalhar guiará também os teus próximos trabalhos, ou no futuro haverá espaço para colaborações mais profundas com outros artistas?
"A minha idéia para o próximo cd é trabalhar num projeto que possa misturar a maior quantidade de estilos possíveis. Ultimamente encontrei várias pessoas que me estimularam muito nesse sentido e não excluo a possibilidade de estabelecer colaborações mais aprofundadas com elas."

Tem algum músico ou produtor com quem você gostaria de trabalhar?
"Gilberto Gil. É um músico completo, tanto no lado rítmico quanto no melódico."

Tua agenda para os próximos meses?
"Daqui a pouco irei ao Japão para lançar o álbum e depois, entre fevereiro e março de 2004, aos Estados Unidos. Uma vez encerrados os compromissos promocionais, começarei a trabalhar no próximo disco."